20 maio 2016

Entender o Brasil agora

O golpe contra a brasilidade vai muito além da usurpação do eterno interino. Ele produziu inimigos de morte habitando os mesmos lares, na porta ao lado, no desconhecido que cumprimentávamos por cortesia. Transformou idiotas em armas letais, fez legião de ingratos de miseráveis históricos depois de comerem, vestirem e estudarem pela primeira vez em séculos e tirou da vergonha em que se ocultavam ou dissimulavam as verdadeiras forças do mal herdeiras de escravismo e ditadura. O Brasil não poderia parecer mais insolúvel e no entanto tão à beira de uma solução - a final?

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Mais do que a cara da direita, que circulava pelas sombras da vergonha coberta de ódio e pulsava como um feto pútrido no interior dos idiotas, a humilhação do golpe mostra ao brasileiro a nudez de corpo inteiro de sua esquerda. Em nada diversa das demais nudezas de quaisquee nacionalidades, falha em esconder que nunca esteve vestida senão dos destroços e farrapos que deixam sobre nós os fracassos do capital em fazer do mundo lugar digno do próprio nome.
Se chega ao poder, não é por lhe ter o povo apreço especial, mas  por oportunismo geral, à guisa de equipe de resgate em catástrofe consumada, arriscando-se por isso à execração sumária, caso não recobre as vidas todas, ou à santidade perigosa dos mitos, e assim tender a se fazer presa da própria imagem ao espelho. Entretanto é mais comum circunstãncia mais singela, em que se submete à pecha de serviçal de faxina nas ressacas seguindo as esbórnias do dinheiro.

Feito o serviço, se acaso deixando a desejar, é caçada e abatida, decerto merecidamente, e se a contento, é de quqalquer modo escorraçada, passando então a vagar nua e louca pelos becos, choramingando e rogando pragas, ignorada por quem se apruma, garçom ou conviva, a caminho do festim novo no endereço que faz pouco acabou de limpar. Passará a noite entre resmungos inúteis e gestos obscenos à volta da balbúrdia, até que na madrugada o tempo a console e a faça sentar nos degraus do portão enquanto não vem o sol, para só então usar a entrada dos fundos e nas pontas dos pés beliscar as sobras em torno dos corpos cheirando a embriaguez e aproveitar-se dos roncos para arrastar cuidadosamente os móveis e esfregar os cantos.

14 maio 2016

'Eles'

Não é à toa que 'eles' dizem o que querem, doa em quem doer (desde que não neles próprios, é claro). Desenhando: a lei, por princípio, é o dispositivo estabelecedor do crime, ou seja, nela se diz o que é e o que não é crime. Tão fundamental é esse princípio legal, que está estampado na Constituição: não existe crime que não seja prescrito em lei - reza, mais ou menos assim, o texto magno. 'Eles', assim tão mal na foto, são o Legislativo: os que escrevem a lei, portanto. Por lei, não estão nem podem estar acima de lei nenhuma, o que não tem a menor importância, pois na realidade estão antes de todas.

Em causa própria ou em nenhuma outra causa

A maior contribuição do Brasil para a ciência política ainda estará por reconhecer-se, mas só depois de esta jogar por terra o prurido de admitir seu axioma fundamental. É aqui no País que se tem demonstrado para além de qualquer dúvida que todo indivíduo, de necessidade político, só atua - só pode atuar - em causa própria.

Nada mais natural que assim seja, pois ameaçada ou perdida esta causa, que em importância é primeira, todas as demais que defenderia deixarão de ter vez. A arte do embate político, portanto, resume-se em pôr permanentemente em xeque a causa própria de todo opositor, desse modo trancando a possibilidade de que cogite invocar outras, as causas comuns, compartilhadas, fragilizando-lhe a capacidade ele fazê-las prosperar.

É incomum a causa própria do indivíduo ser a mesma de um outro e mais incomum ainda que seja a de grupo de indivíduos; entretanto toda e qualquer causa própria tem por eixo ou fundamento a sobrevivência, ou seja, a busca do indivíduo por manter-se vivo, que pode ser dita a 'causa própria universal'.

Das causas comuns - ou causas partilhadas - pode dizer-se  serem constructos abraçados por mais de um indivíduo por abrigarem ao menos uma causa abraçada por cada um deles e, no mínimo, a 'causa própria universal', podendo estas duas ser, inclusive, uma e a mesma.

Como é evidente, a 'causa própria universal' não possui por si 'corpo', senão excepcionalmente. É inteiramente geral, 'substancializando-se' em outras causas próprias, que lhe conferem a possibilidade de ter algum efeito. Quando 'substancializada em si mesma', excepcionalmente, a 'causa própria universal' se constitui na manutenção imediata dos sistemas vitais do indivíduo, o que habitualmente a condição gregária tende a prover para a grande parte ou para a totalidade dos elementos na grei. A 'causa própria universal' é a essência ou o eixo das causas próprias palpáveis, ainda que entre si conflitantes, e todas as causas, mesmo as coletivas, têm por raiz - ou eixo, ou  essência - a 'causa própria universal'.

Num sistema de gestão da 'coisa pública' admitindo a representatividade a posição de representante de subgrupo da sociedade determina uma causa própria peculiar, que é a de o indivíduo conservar-se na condição de representante, isto é, a de manter-se na assembléia de representantes. Do jogo político de que consta a representatividade, portanto, é parte inalienável algum empenho de cada representante, visando a prevalência da causa comum que foi instado a defender na assembléia, em ameaçar a estabilidade da condição representativa do outro.

Embora inseparável do jogo político representativo, o empenho dos representantes em reciprocamente por em xeque suas estabilidades enquanto representantes é fator cujo abuso e descontrole generalizados é comum determinarem seja o caos do sistema, seja sua estagnação. Para que a administração pública avance é preciso que o embate ocorra no plano das causas comums defendidas por cada representante, servindo o embate no nível das causas próprias como instrumento circunstancial de pressão em apoio às disputas no outro nível.

O embate das causas comuns ou coletivas defendidas por cada representante é suposto se dar pela avaliação de qual ou quais delas oferecem as maiores vantagens e os menores danos para a comunidade como um todo, decorrendo, pois, no âmbito da argumentação técnica, onde com exclusividade é esperado resolver-se. O uso do embate  no nível da causa própria de cada representante, portanto, deveria ser desnecessário, sendo sinal de algum tipo de fragilidade do tecido político quando presente, tendendo a disseminar-se e a prevalecer, caso providências não sejam tomadas para estancá-lo ou para, no mínimo, mantê-lo em patamares toleráveis. Perdido esse controle mínimo sobre ele, tende a tornar-se a face visível das assembléias de representantes, postergando ou eliminando por completo o debate sobre as causas comuns.

O único fator com capacidade suficiente para contornar assmbleias de representantes em caos ou estagnadas é a opinião pública forte ou organizada, que pode agir tanto diretamente, pela massa de cidadãos, quanto indiretamente, quando apóia em massa um representante e assim o capacita a resover o óbice, recolocando em pauta a discussão das causas coletivas. É entretanto possível que o embate de causas próprias dos representantes contamine as massas, impedindo-as de tomar as rédeas da situação, impedindo-as de organizar-se, desse modo pavimentando o caminho para a desordem geral, o embate disseminado, a guerra civil. Circunstâncias como essa tendem a permanecer indefinidamente ou até que as perdas determinem seja a eliminação ou o suficiente enfraquecimento de uma ou mais das facções envolvidas, seja a trégua para negociação, que não passa do estabelecimento ou restabelecimento das causas comuns.

Diante desta exposição é possível talvez mensurar a estabilidade de uma nação e os riscos a que está sujeita avaliando-se o comportamento dos representantes quanto ao uso ou abuso do embate de causas próprias enquanto dispositivo de pressão para a viabilização das causas coletivas que debatem. A maior visibilidade do debate sobre causas coletivas, então, é sinal de o sistema conservar-se estável e quanto mais visível é o embate de causas próprias, maiores a instabilidade e o risco de contaminação da esfera dos cidadãos. Há também a circunstância de entre os representantes prevalecer o embate de causas próprias e este não ter a visibilidade que lhe caberia, sinalilzando a possibilidade de o embate em torno às causas comuns estar sendo utilizado como cortina de fumaça para o outro, o que seria detectável pelos recorrentes impasses ou alguma estagnação do país determinada pela escassa coerência dos projetos aprovados, ocorrendo mais perdas do que ganhos para a população em geral.

Assim que em termos ideais é imprescindível que a causa própria de um representante e a causa comum, por ele representada, se impossível coincidirem, sejam quase a mesma ou tenha esta última a anterior por eixo, de modo a garantir que a consecução de uma se articule na consecução da outra inevitavelmente. Fora dessa perspectiva a atividade política representativa não procede, estanca. Isto porque o princípio por trás desse panorama estabelece que só se vive em causa própria ou em causa nenhuma.

Punição preventiva e perfil da Justiça: entrelace de meditações

Sendo embora tema caro à ficção, a precognição de crimes não é 'instituto' - diria o rábula - com que se possa ou mesmo se deva contar no mundo real. Representa o anseio hiperbólico de livrar de delitos o mundo atacando-os in utero, quando ainda são possibilidade. O instrumento mais próximo que se possui disto é a lei, que em si e de fato não prevê nada além do que em seus termos é delineado das ilicitudes, não sendo necessário que venham ocorrer tão-só por estarem ali descritas. Não bastasse consistir na resposta a atos considerados de algum modo e em algum grau incômodos ou inoportunos, tais atos têm de necessidade, portanto, já ter ocorrido (pois não parece justo ou são legislar sobre atos hipotéticos, exclusivamente potenciais, jamais observados), o alcance futuro da lei pode ser, quando muito, obtido na forma de preventivo. Previne por prescrição do que se pode ou não se pode - ou do que é devido ou indevido - fazer e por cominação, porque - esclarece o rábula - prescrição alguma faz sentido sem a contrapartida que induza a acatá-la: parece não bastar ao humano lhe apontarem o caminho do bom sem, ato contínuo, espicaçá-lo para que o tome.

Fora desse âmbito parece não apenas injusto, mas insano, falar-se em prevenir crimes dum ponto de vista judicial. É certo, entretanto, que o posicionamento de polícia onde é habitual ocorrerem malfeitos pode sugerir cautela excedendo essa indicação, mas é bastante compreendê-lo como representação viva da prevenção na lei, simbolizando a um só tempo e potencialmente prescrição e cominação, isto é, desde que conserve a condição pontencial até ser explícita e inequivocamente instada a atuar, é claro, coibindo e, em justa medida, punindo o ilícito efetivamente cometido. Em outros termos: não é facultado ao agente da lei adivinhar ocorrência de crime. Fosse o contrário e não sendo ele, por exemplo, vidente, a sociedade tenderia a constituir-se em gigantesco sistema prisional e as leis em indutoras de insanidade mental em seus agentes.

Punir preventivamente, portanto e se pouco, é monstruosidade - 'teratologia', atalha o rábula. Punição é jargão jurídico para vingança e que eufemisticamente se acredita denotar reabilitação eventual para o condenado de crime e lenitivo para o lesado por ele. Em si mesma ou enquanto fato não é garante de uma coisa ou de outra, demonstrando que a justiça só se projeta no futuro, exclusivamente em potência, por intermédio da lei e de seus agentes, e perante quem os cidadãos se permitem coibir-se de produzir malfeito à hipótese de serem punidos. Os demais, insensíveis à cominação legal, acreditam ser seus atos eles próprios expressão da justiça, supostamente contemplando o que a lei, por motivos nem sempre nobres ou justos, teria escolhido omitir.

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A Justiça, ela mesma, não é cega. Não se pode anuir a que o seja sem incorrer em equívoco sério. É dedutível que possua o sentido da visão porque do contrário seria despropositado vendar-se, salvo se por motivos estéticos ou de autoestma. Permite, então, que a vendem e só para a presumirem isenta, imparcial, não exclusivamente quanto a quem, mas também quanto a o quê. Seu sentido privilegiado é o ouvir, não por ser cega, insista-se, mas por não ter visto o que irá julgar, porque atua depois de ocorrência extraordinária. Sua matéria, pois, é o que outros viram e então lhe narram: por isso ouve e exaustivamente, a saber, versões até opostas, contraditórias do fato, à medida que as depositam na balança que traz na mão. Sua matéria é o verbo puro, do qual retirará a verdade possível em meio ao que em primeira abordagem pode saber a paradoxo. E a retirará pela extrema sensibilidade do tato dizendo-lhe o peso relativo dos pratos pendentes.

Em sendo indicativo de que julgará pelo que ouve por não ter visto, a venda o é também de que foi chamada, instada a dirimir dúvida, impasse, e de que só o faz quando convidada. Agir de outro modo seria trocar-se por estranha, a tirania, ou por figura que tomam por si, embora possua asas, a vingança - Nêmesis. Para a Justiça o mundo, como o indica seu homógrafo adjetivo, é puro e tende a resolver-se sem necessário ser que interceda senão quando convidada. E até que inicie e mesmo até concluir seus trabalhos tem de conservar-se assim, na presunção de que trata com o puro até que se demonstre, se prove, o contrário. Agir de outro modo seria passar-se por vate, arriscar-se em profecias, e esse é definitivamente um papel que a Justiça reluta em desempenhar, o de antever seja o que for - considerando que já não viu o que foi - e eis, daí, mais uma razão para ter-se feito vendar: não pode, não deve arriscar o olhar adiante.

Faz tempo vem-se recusando a Justiça a entrar em cena portanto mais do que a balança. Concedeu em empunhar espada por tempo demais, em claro desalinho com sua real natureza, demonstração esta de ter sido em extremo gentil com cessão assim duradoura. Espada foi sempre instrumento de Nêmesis, jamais tendo encontrado a Justiça ocasião de usá-la, pois punir é instância extrema da lei e antes tendo em vista prevenir o que ali se prevê, isto é, a incidência ou reincidência em falta: e fora justo ou razoável castigar, que sentido teria ungir o humano com os dilemas do livre-arbítrio se fosse ele previsível como a queda livre dos corpos? Por isso ela não faz leis, por serem intrinsecamente preventivas e deverem para tal prever punições, cominá-las - corrige o rábula. Por conseguinte, também não pune, já que punir tem parte com prevenir, que pressupõe prever, antecipar o imprevisível. Ela julga apenas e apenas segundo critérios que lhe fornecem os próprios homens, que são as leis. Quem pune são os homens, orientados ou auxiliados pela vingança, cuja espada é sinal dos seus ardis, e as asas, da pressa e da presunção indutiva (como a de conceber o futuro).

Enquanto espírito que possui o humano antes de permitir que o encarne Nêmesis, a Justiça tem, sim, alguma participação na cunhagem das leis, oferecendo sua balança à guisa de norte ou farol, mas não por isso permite-se interpretá-las quando em ato de julgar: seria interferir, rasurar, reescrever o que é de responsabilidade exclusiva do homem, fugindo inteiramente ao seu perfil arriscar em jogos dessa natureza o próprio equilíbrio. Quando muito colige, em meio à prolixa, desatinada e deseseperançada busca humana por equidade que constitui as legislações, o que concerne ao pleiteado e se julga é quanto a se terem esgotado os recursos das partes, quando o debate chega ao termo da lei. Ir além disto, repita-se, é ombrear-se com os homens, tomar para si o que é tarefa deles, arriscar-se a que a tomem por vingança, mas se algo se atreveria a ordenar, isto seria o retorno do mundo ao que é enquanto adjetivo - puro, em equilíbrio, numa palavra, justo.

Nem isto, entretanto, cabe à Justiça - ou permite-se ela - pronunciar, cabendo-lhe talvez mostrar, como por eras vem fazendo, ao homem o que em verdade é, como num desnudar-se, a começar com a rejeição da espada, lento e parcimonioso para com o entendimento delicadamente instável dos que o presenciam. Com o tempo quiçá entendam que o fim dela, Justiça, é diluir-se em pura reintegração do que fugiu à regra, é o exercício sem esforço do perdão genuinamente pedido e concedido, o que não parece ainda ser destino visível. Porque perdão é o que por intuição se ofereceria ao agravo involuntário, que sequer confina com o descuido, enquanto o castigo se aplica, também intuitivamente, à falta que se entendeu propositada. E se propósito houve - toma a palavra o rábula, como a pavonear-se justo - é porque houve motivo, pelo que é estreito o caminho de perdoar quando o amesqunham avenidas em que trafegam nos dois sentidos crime e seus ensejos e onde, desnorteadas, procuram inutilmente estabelecer alguma ordem as punições.

10 abril 2016

Por que em claro vivamos sempre, noites e dias!

"... um governo que finge ser de esquerda mas..." - diz um estudante francês no abril de noites em claro. Já ouvimos e continuamos, deste lado do Atlântico, a ouvir essa frase.

Mas seria sensato negar a todos os governos o benefício de duvidarmos de que prometem mentiras para se elegerem? Creio que não - não a todos!

A mecânica ainda incompreendida ou não aceita da democracia constitui fluxo, como o sanguíneo, que em condições normais não tem como não passar pelo coração se o indivíduo vive. No organismo democrático é a população o coração e o sangue. Não é possível pensar a democracia como aparelho funcionando sob controle remoto enquanto dividimos a atenção com outras coisas: não que se trate de vigia perpétua da coisa pública, pois não há o que vigiar quando efetivamente se faz essa coisa em conjunto, quando o foco é o bem de todos, sem exceção, o bem que não é ponto fixo a ser buscado mas acomodação permanente do abuso à tolerância - e não o contrário.

É tola a assunção de que a ênfase no comum minimiza ou elimina o individual, o privado. É tola por não fazer sentido, pois não há coletividade senão a de indivíduos plenos, assim como individualidades exacerbadas ou amputadas formam, quando muito, coleções, conjuntos na acepção matemática do termo. Em comunidades verdadeiras privado e comum se reforçam, cooperam, dialogam, jamais se opõem um ao outro. E o único critério exigido para que isto se dê é a atenção focada no comum, pois não há o comum senão o pertencente a todos.

O quid de nossos problemas reside em mentalidade tirada de delírio e transformada em pesadelo, a da individualidade superabundante, cuja presença só se consolida se rodeada de individualidades amputadas - e permanentemente insatisfeitas. Nem a perspectiva - ou promessa - de que, embora limitados, os espaços para individualidades exuberantes podem ser ocupados por todos ou quaisquer uns em turnos torna tolerável o agrupamento humano nesse molde - do que estamos advertidos desde há séculos. E se temos teimado em manter-nos nele, admitamos, é ou porque não conseguimos abrir mão do que temos por privilégios ou porque aguardamos com impaciência a oportunidade de os usurparmos.

Num contexto assim, se algo de comum existe, é o sentimento de mútua exclusão de todos os projetos pessoais por intumescimento próprio, alguns associando-se provisoriamente em vista de aumentarem seu poder e escolhendo quem o represente e exerça frente aos outros, enfim, a democracia como nesses termos somos capazes de compreender, de conceber, a democracia em que o projeto comum - de País - é estratégia de guerra: não é à toa que corremos a abraçar a proposta hegeliana de lógica em que o paradoxo é tolerado enquanto solução.

E num contexto assim não se espere que se cumpram facilmente as promessas, por sinceras que sejam, de aspirantes a representantes de grupos, por maiores que estes sejam. Haverão de encontrar, representantes quaisquer, à volta do posto para que os escolheram aquelas individualidades exuberantes que desde sempre manejam e controlam as próprias exuberâncias em detrimento das demais.

A única coisa a refrear essas individualidades infladas é a certeza de que os representantes contra quem se batem contam com base sólida, quando não crescente, de apoiadores. Tal apoio, como se vê, não pode ser intermitente: a democracia que conhecemos não tem piloto automático.

O excelente dessa conjuntura é ser ela exercício permanente da noção possível de 'coisa comum' (a possível numa democracia como esta que somos capazes de entender), capacitando-nos à execução plena, quando a concebermos, da 'coisa verdadeiramente comum'. Sem um significado sólido, ativo e amplamente aceito toda representação - e com isto se entenda 'todo signo' - é inconsistente e se dissipa.

13 março 2016

Presunção a posteriori de inocência

Faz pouco escrevi sobre não existir quem em sã consciência se poria a julgar - sem falar em condenar - alguém presumido inocente.

Presunção é hipótese, ou algo 'menor que', ou que 'está sob', ou 'é subordinado a' uma tese - e esta seria uma certeza. Assim que uma coisa é presumir inocência, outra é presumir culpa, e ninguém é levado a tribunal - até onde sei do tema ou o compreendo - se por hipótese nada se tem contra si. É preciso, sim, que se presuma ao menos uma culpa para que se instaure um processo, mas é preciso que se enfatize, particularmente para o brasileiro em geral, que até aí a culpa é também hipótese, ainda que tratada como tese e bem fundamemtada pela promotoria.

E durante o julgamento, até que se prove o contrário, é exigido que se considere também a hipótese de o fulano ser inocente, sustentada pela defesa. A presunção de inocência é, em fim de contas, uma variante do princípio chamado 'benefício da dúvida' e não passa de ritualização em Ética da consciência da falibilidade humana, sendo o evidente fundamento da hoje famosa 'ampla defesa'.

É, então, dispositivo a posteriori no contexto dos procedimentos da Justiça, para os quais já se presumiu a priori alguma culpa. Tomada ela, presunção de inocência, a priori, ninguém em sã consciência, como se disse alhures, vai estabelecer processo judicial algum.

Apesar das evidentes vantagens de garanti-la nos meandros do Direito, o fato de vir como 'contrapeso' da presunção de culpa não livra das sequelas de ter sido objeto desta última um réu inocentado, pelo que, na prática, quando a posteriori, a presunção de inocência termina por ter efeito quase exclusivamente retórico, em especial em sociedades como a nossa, brasileira, em que o descompasso dos seus segmentos suscita percepções distintas do que é direito e assim necessidades conflitantes do fazer justiça. Num contexto como o nosso nem sempre as provas que inocentam são em particular assimiladas com naturalidade, o contrário das que inculpam.

Temos muito a caminhar, enquanto povo, na direção de nos tornarmos, um dia, gente como nossas imaginações talvez não tenham ainda sido capazes de conceber. Que não se perca o passo por isso.

11 março 2016

A justiça à brasileira,

essa que mais do que a labuta de rábulas, legisladores e magistrados rumina o coração do brasileiro e dali extrai seu vigor tremendo, conserva aquele traço ibérico - talvez - antigo que fez a fama e as delícias da Santa Inquisição - para que havia culpa em somente ser-se suspeito, prova cabal de que não se foi santo, este sobre cuja inocência não é possível recair a mais leve das dúvidas. A sentença de um inquirido era de hábito prodígio da Lógica depois de coagida a vencer labirintos de hipóteses escabrosas e cofissóes ao látego à guisa de evidências, de que se extraíam teses ardendo em execração pela presença insofismável do mal.

Como toda justiça, a Inquisitorial era ocupação e enquanto tal só faria sentido em oferecendo resultados: justiça é labor como outro qualquer e cuja especialidade, o julgar, exige presunção de culpa (pois a ninguém se permite em sã consciência julgare se é presumido inocente - caso este do santo), culpa que se perfilou em lei, que a prescreve ou, o que é o mesmo, que a prevê. É preciso, pois, que se estabeleça em lei culpa e se a presuma de alguém para poder outrem tirar desse quadro o próprio sustento. É de admirar, diante disto, que sejam tão poucos os condenados mundo afora.

Mas é perfeitamente compreensível, por isto e tudo mais, que brasileiros jamais fomos senão horda de degredados.

31 outubro 2015

O Estado é o mercado

Poucos argumentos são tão comuns na cena política nos derradeiros trinta ou quarenta anos quanto o da oposição de Estado e mercado, em que se formula o enfraquecimento ou aniquilamento do primeiro em nome da prevalência exclusiva do segundo. Seja este talvez o mais resistente dos temas pelos quais os desgastados conceitos 'direita' e 'esquerda' - mesmo que apenas de si e para si - ainda fazem algum sentido.

Por sua face comezinha divisa-se tão-só o anseio do empreendedor por usar dos recursos de que escolheu dispor, entre os quais - e talvez prioritariamente - a mão de obra, sem necessário ser prestar contas a qualquer instância de algum modo dita superior ou competente para tal lhe cobrar. Já do lado de que se poderia dizer 'teórico' - ou da argumentação mesma a justificar a pretensão - o defensor da primazia do mercado vale-se de expediente tido à primeira vista por, no mínimo, bombástico, uma vez atacar o que é o cerne ou o fim de todo filosofar, a questão dita Ética, com alegar ser o mercado a fonte donde exclusivamente fluiria o quanto teria a filosofia prenunciado e tão-só - ou quando muito - esboçado nesses seus dois mil e quinhentos anos de existência.

Para tanto tem usado de conceito suposto crucial, mas tratado sem a cabível e já clássica crítica, para demonstrar que o simples agir em comunidade e sem maior reflexão do que a orientada por não mais do que esse conceito, o de liberdade, é capaz de prover a humanidade disto que ela tem ensaiado produzir em ao menos dois milênios e meio de especulação filosófica. A ideia do livre agir, por sua vez assentada sobre a de individualismo (que mais não tem sido do que a assunção de um egoísmo de que se poderia dizer 'cru'), seria de per si o motor a impulsionar a sociedade a, não por certo, o seu funcionamento ideal (objetivo quimérico em cuja busca ter-se-iam perdido os filósofos, diriam os proponentes do Estado mínimo ou nulo), mas a condição suficientemente justa e que comportaria ao menos submissão articulada a despotismo, ambos esclarecidos.

Mal nutrida no pensamento clássico, do qual distancia-se com os excessos de disciplinas exegéticas impotentes para recriar tal e qual o foi o passado, além de vexada com ter tolerado em forma de lei - que por natureza é hábito (outrossim dito 'moral') calcificado(a) - práticas como o escravagismo e outras tantas em frontal desacato à condição humana (a cujos axiomas teve-se em consenso de anuir), a filosofia aparecida do ocaso do Renascimento e da Contrarreforma vê-se rendida à incapacidade de emendar na argumentação pelo mercado dito livre o quanto algum tino sobrante lhe acusa haver ali de incompatível com o bom senso. Por isso se lhe mostra bombástico o encaminhamento do argumento, pois parece fasciná-la, antes de sequer intrigá-la, a incontornável, óbvia submissão da liberdade à capacidade de escolher, já que não atina com ser justo isto, a escolha, o que a torna conivente com a ignorância (pois não há escolher quando existe certeza, isto é, quando se conhece), pelo que não se pode afirmar a liberdade como direito inato, mas como dever e, se de algum modo como direito, um adquirido, e somente quando se acredita ter-se logrado obtê-la sem estar-se em erro. A individualidade não lhe parece menos evidente, mas ao ser tratada como modernamente tendem a o ser os 'ismos' mostra-se tingida de inequívoco perigo: o indivíduo, afinal, só é definível como coisa em perene mutação, sendo preferível que por expansão e não, como como vem revelando a prática do mercado e mesmo a defende a teoria, por contração, à qual corresponderia a prevalência sempre crescente dos interesses do indivíduo, ainda que em detrimento do que interessa aos demais - disto deduzindo-se que o equilíbrio (e não a paz) da coisa pública seria produto do constante embate de interesses privados sem necessário ser estabelecer-se a priori ou descobrir-se conjunto de regras fundamentais para tal.

As regras num mercado dito 'livre', assim, apareceriam da estrita defesa da individualidade, a delimitada pelo tanto que o sujeito fosse capaz de incorporar a si e descrita como o que possui tendo por função satisfazer-lhe o que entende por necessário e cujo limite básico se estabeleceria na manutenção da própria existência. Não se descarte desse equacionamento o arbítrio do sujeito para estabelecer o quanto crê corresponder a tal limite e o quanto pode desconsiderar do limite alheio, caso assim entenda ser justo. Já no que concerne à expressão pública do 'justo', o contexto da chamada Justiça, não está ela imune às expressões privadas, as quais historicamente já tenderam a organizar-se em torno de uma única, dita a do chefe ou soberano numa dada comunidade, e de modo a preservá-la, estando nela subsumido abraçar a Justiça, a pública, a comum, mas configurando condições distintas de gozo decrescente do 'justo' relativamente a esse centro e tanto mais exíguas quanto mais distanciadas dele. O Estado moderno, por seu turno, procurou com mais rigor efetivar o caráter público da Justiça, entendido como a submissão de todos, sem exceção, ao justo, ora definido como espécie de média dos 'justos' privados e em que cada qual tem de ceder porção do seu para que se preserve no mínimo ou acima disto o limite geral, agora estabelecido em consenso. A teoria do Estado mínimo, em tese, é reação ao disposto pelo Estado moderno relativamente à Justiça e busca apresentar argumentos que justifiquem as discrepâncias do Estado antigo, entre os quais a discussão do preceito de igualdade (cujo debate atingiu o ápice na Revolução Francesa) articulado, naturalmente, ao 'justo'.

Em resumo os teóricos do Estado mínimo advogam a busca no 'mercado' do quanto o Estado moderno, dito 'de direito', passou a prover aos indivíduos, sem distinção, e que nada mais é do que acerto a que se chegou por intermédio de negociações mais ou menos vigorosas - e que é previsível tanto como certo ocorrerem no âmbito do 'mercado' assim como o entendem tais teóricos - com a particularidade de no âmbito do Estado as regras dessa negociação serem menos 'voláteis' do que prevê para o mercado, dito 'livre', a teoria deste e do Estado mínimo, cuja expressão mais radical preconiza o que chama de Anarco-capitalismo, definido como a pulverização ou eliminação completa da ideia de Estado - como se tal fosse possível ou sequer pensável.

Ora, o Estado sempre existirá, ainda que sem um percentual de seus indivíduos a geri-lo. O termo 'Estado' diz respeito à condição gregária ou a como está ou é um dado grupo de indivíduos. Ele diz respeito a como eles interagem, a como por ele é instanciado o que há de fundamental ou incontornável nos padrões de sua interação. Assim é que falar de 'mercado' é falar necessariamente de Estado. Mesmo num mundo como este em que tramitamos, em que o 'mercado', tornado mundial (algo que, em tese, sempre foi, variando apenas o âmbito do que se conhecia do chamado 'mundo'), perpassa os diversos Estados, a eliminação desses Estados não acarreta o apagamento da noção de Estado, mas sim ou tão-somente a criação de um Estado único, com a particularidade de ser explicitamente gerido por quem, em última análise, vem gerindo-o desde há muito segundo regras draconianas e a despeito do estatuído no Estado de direito, mas desta feita tendo por fundamento conjunto de conceitos manipulados segundo suas acepções mais ingênuas ou tão-só mal intencionadas, entre os  principais os de liberdade e individualidade, de maneira a instalar a competição generalizada, sem peias e passível de controle total por um dado grupo, repita-se, de perfil indistinguível do de quem tradicionalmente tem dominado os Estados como ainda os conhecemos' mas sem a legitimidade outorgada pela 'coisa pública'. A ideia de Estado mínimo, assim como a de Anarco-capitalismo, enfim, é eufemismo para a chamada 'lei da selva', ou para a capitulação do ser humano diante dos prolemas fundamentais da Ética.

01 agosto 2015

Depois de comentarem Chomsky

Um comentário a uma entrevista com Chomsky sobre Anarquismo e 'Libertarismo' alega que esse filósofo não faz jus em suas explicações ao que o 'Libertarismo' com efeito é ou pretende ser, isto é, uma corrente convencida da verdade de uma ilação antiga da economia, segundo a qual o mercado promove justiça, equidade, se deixado 'livre', ao sabor de suas leis. Libertários advogam, quando moderados, o Estado mínimo e, quando radicais, algo que se chamou Anarco-capitalismo.

Diante do fato de uma escorchante desigualdade ter sido o que resultou de toda liberdade desfrutada pelo mercado (que para o libertário ainda é pífia, uma vez que há impostos e  outras regulações) ao menos nesses derradeiros duzentos anos, salta aos olhos a ideia de 'competitividade' ou de 'competição', tida nessa linha de pensamento por condição incontornável da natureza (a humana, inclusive). Quanto a isto cabem ao menos duas considerações:

a) sendo a condição gregária um modo de afastar da grei ou lhe amenizar a competição que não lhe interessa, mantendo, é claro, outras que lhe parecem úteis, interessa saber qual tipo de competição é tolerável no caso do ser 'racional' humano, digo, qual é o gênero de competição que não esgarça ou rompe o tecido social;

b) é mesmo possível que o conceito 'competição' não seja o que há de espúrio no credo libertário, mas sim o tipo escolhido de competição a ser tolerado pela sociedade, uma vez que se o objetivo fosse competirmos por uma 'absoluta' igualdade dos indivíduos, por exemplo, o elemento desagregador suposto ser inerente ou implícito à ideia de competição, ao que parece, desapareceria.

Mas dessa escolha têm-se mantido à distância mercado e seus defensores (que acreditam, inclusive, numa demonstração impossível do conceito de 'liberdade').

A ideia de igualdade é claramente metafórica nesse contexto. Mesmo em termos orgânicos os indivíduos somos somente muito parecidos uns com os outros. As necessidades do organismo, em princípio o motor ou a causa de todas as demais necessidades pensáveis do indivíduo são entretanto refreáveis pela cabeça, daí o recurso eterno à educação, ao exercício continuado do pensamento. Por isso 'igualar' tem função exclusiva de meta da qual parece ser possível somente aproximar-se, talvez jamais tocá-la.

Mas é diferente do sentido usado em 'liberdade', conceito tido por 'a priori' da condição do indivíduo, ou seja, seríamos por natureza 'livres'. Teórica ou praticamente isso é um contrassenso ou uma impossibilidade: em prol da economia de palavras, tome-se apenas a questão prática para dizer que tal liberdade jamais foi observada, uma vez que os indivíduos estão, sim, atados às circunstâncias, das quais também são partes desde os eventos naturais até as ocorrências sociais e por aí vai; a única liberdade observável - e por isso teoricamente descritível (ou teorizável) - é a liberdade 'a posteriori', digo, é-se atado, aprisionado por condição, por natureza, e o que move o indivíduo é justo o livrar-se dessas amarras, ainda que sempre haja outras incontáveis adiante, por mais que tenha sucesso em desvencilhar-se de quaisquer delas.

Isto é vital para a compreensão do nosso mundo gregário, que a despeito de ainda levar a extremos a opressão (ou escravidão - tirando as peias da língua - mal disfarçada), acredita ter cunhado um conceito com que divertir as massas (e inadvertí-las), do qual se tira, como se de cartola, a questão dos 'direitos': temos direitos enquanto condição originária, direitos natos. Na realidade, teórica e praticamente, temos talvez um único direito de nascença (que talvez seja mesmo uma compulsão, um instinto), o de passar a vida livrando-nos dos obstáculos tendo por paradigma uma concepção de liberdade de que, por sua vez, nem sequer é possível aproximar-se (digo, o caso contrário da noção de igualdade): a cada obstáculo vencido a realidade é exata em apresentar não um outro para substituí-lo, mas centenas de outros, sem falar nos não superados e já coexistindo com aquele que por acaso se deixou para trás. Desse viés a condenação dada a Sísifo é análoga à que se deu ao franco-atirador em 'O Fantasma da Liberdade' (de Buñuel): a liberdade, ou seja, a vida como ela é, em princípio indiferenciável de uma pena de encarceramento ou de um rolar ladeira acima um fardo que eternamente rola para baixo depois de se o ter levado ao topo, ainda que alguma vez não o aparente - quiçá por sermos muito esperançosos ou ingênuos.

Enfim, vista deste viés a ideia de liberdade entranha-se na de 'responsabilidade', pois se é de partida responsável pelo instinto ou compulsão de superar obstáculos e além disso tem-se de ser responsável por não obstar a tentativa de superação alheia dos seus, pois isso termina por redundar em obstáculos adicionais para todos. Essa é em linhas gerais a 'equação da vida', nada simples, como é fácil de constatar em simplesmente continuar-se vivendo, mas é o que decorre de por o conceito de liberdade nos devidos trilhos, o que decorre de tomá-lo pelo que em fato é e em teoria é possível; conceito 'a posteriori'.

01 julho 2015

'... a carta da democracia'.

É como anuncia uma crônica do diálogo de Tsipras e União Européia, que termina em plebiscito.

A metáfora me faz rir: à primeira vista se fala como se de coringa, o que em grande medida é, mas está longe de oferecer exclusivamente os benefícios implícitos nessa carta num jogo comum.

No jogo democrático, em princípio, seria desejável se os baralhos utilizados nele fossem compostos somente dela, 'carta da democracia'. Mas de fato ninguém o quer, justo por implicar o oposto do que garante um coringa normal, por não implicar benesse, ao menos não de imediato.

Fala-se muito nos gregos como 'pais da democracia', o que não é verdade. Democracias sempre existiram, quase sempre na modalidade direta. Invenção grega nesse campo, sim, é a 'automação' do sistema democrático que, como qualquer outra automação no Mundo Antigo, tinha de contar com algum tipo de tração animal, sendo no caso a humana a melhor indicada para o trabalho. Assim contratam-se uns portadores de problemas e se faz com que se confrontem até o advento de alguma solução, enquanto os demais, os contratantes, cuidam do que estimam ser de efetiva importância para si, suas vidas privadas, tendo antes firmado o compromisso de anuir a seja o que for que decidiram seus contratados.

Enxergando-se desse viés o processo democrático, podemos constatar que de Péricles para cá evoluiu-se pouco, ou quase nada se não se consideram os cosméticos, mais visíveis na interminável sofisticação dos mecanismos de corrupção, muitos dos quais sagrados em leis.

A contar com a nossa sanha por delegar o que em princípio deve caber ao cidadão (quando já faz décadas que, por exemplo, economizamos dois ou três passos do sofá até o televisor comprimindo um mero botão), concordaremos com que a retirada desse tal coringa - dum baralho que deveria constituir-se da reprodução dele tão-somente! - no meio de um joguinho a que assistimos à distância não deve causar lá muita euforia nos delegantes e na certa alegria alguma nos delegados.

Entretanto é, como disse e acredito ser, a única carta a fazer sentido no tal jogo democrático e, portanto, a única a merecer estar no baralho com que é jogado. Mas como não implica prendas, seja qual for a circunstância, e sim trabalho, trabalho constante, interminável, quase ninguém faz festa quando aparece.

29 maio 2015

Ora, dir-lhes-ia sem hesitar: parabéns, têm razão, mas não por inteiro ou do modo que imaginam tê-la.

A ideia de 'mercado', como qualquer outra, tem lá seus descaminhos, suas vielas escuras, inexploradas ou quiçá inexploráveis. Se o definimos como de hábito, por exemplo, como o espaço em que ocorrem as trocas de bens, e se o limitamos com exclusividade à esfera humana (pois a rigor há no mercado incontáveis esferas), as conclusões saídas destas disposições preliminares podem ser desconcertantes.

Observemos então esse universo das trocas humanas de bens: não constitui, se o submetemos a lentes que chamou Quintana de abismais, esfera singular, única, mas sistema de esferas diversas, seja embutidas, seja entremeadas, a depender do fator usado para caracterizá-las. Tomando-se por paradigma, por exemplo, a atuação do governo frente ao mercado, percebem-se ao menos duas esferas algo distintas entre si, uma sob seus controle e supervisão e outra lhes escapando, sendo a primeira supostamente mensurada e a segunda de dimensões inescrutáveis (pois fosse de outro modo, ter-se-lhe-ia noção da grandeza). Já quando o critério é o dinheiro, entretanto, o quadro torna-se um tanto mais diverso e caótico, uma vez se saber que na esfera supervisionada pelo governo sua presença é universal e inquestionável, enquanto na outra tal não se pode afirmar com igual segurança, pois é justamente a cor dele, dinheiro, o que confere a relativa visibilidade à porção conhecida desse setor de dimensões imprecisas e por suposto monumentais, embora se intua que atue até muitíssimo mais à frente do que é possível vislumbrar, então diluindo-se ou esgarçando-se para dar lugar ao que se acredita ser o puro escambo, quiçá permeado pela passagem fortuita de outra moeda ignorada e efêmera.

Ou seja, a depender do paradigma ou critério escolhido para estimar-se forma, dimensão ou outras quaisquer especificidades dessas seções do mercado seria possível representá-lo ora por esferas concêntricas, ora por esferas em interseção ou mesmo por outras que tão-só se tocam ou quiçá jamais o façam, sendo estas últimas apenas estimativas, às quais se somam a dúvida mais prosaica quanto a várias delas serem com efeito esferas.

Da presença ou ausência do dinheiro no mercado chega-se ainda aos bens cambiados eles mesmos, que por sua vez se distinguiriam, por exemplo, segundo serem ou não cambiáveis por moeda ou mesmo por estarem de fato sendo ou não trocados por ela. Deste viés entrevê-se espécie de cruzada dos afeitos ao uso amplo e irrestrito do dinheiro através do mercado em toda sua inteireza (se de tal magnitude é possível falar), cujo mote alega inexistir o que ele, dinheiro, não seja capaz de comprar. Trata-se, é evidente, de empreitada quixotesca, primeiro, como se viu, em termos do que seria na totalidade a expressão do mercado quanto aos bens, segundo, por ser de todo descabido, por desprovido de praticidade, estimar em moeda tudo quanto a velocidades impensáveis trocam entre si somente os humanos (pois conota-se aqui, en passant, o quanto trocamos também com seres outros nas demais porções do mercado total, de cuja consideração de momento abrimos mão em prol de não nos embrenharmos nalgum tipo de infinitude). Recomenda-se portanto que se postule a existência de infinitos bens inavaliáveis em moeda para cada outro que é capaz a moeda de apreciar.

Entende-se o por que dessa cruzada das finanças mercado adentro (ou afora): controle. Pois o dinheiro é como tanto o contraste que se injeta num organismo para melhor lhe radiografarem as entranhas, quanto as rédeas ou coleiras. Por seu intermédio ter-se-ia a um só tempo a tão cobiçada visão panorâmica do mercado e a capacidade de menejá-lo. Manejá-lo porque o dinheiro constituiu pletora de virtudes cujos efeitos o assemelham às substâncias indutoras de dependência quando instiladas em organismos. Mas entre as virtudes principais está sem dúvida a possibilidade - exponencialmente maior do que a de quaisquer outros bens cuja troca intermedeie - de se o estocar em espaços comparativamente ínfimos. É provável que nesse aspecto o superem somente os bens produzidos com a informática e, de futuro, com a nanotecnologia, sendo certo, por outro lado, que em vista disto venha o dinheiro a assumir uma e outra formas, venha a transmigrar em espírito para o bit e para o nano-objeto. Fosse tanto insuficiente, sua estocagem dispensa de há muito os cuidados e despesas implícitos no armazenamento da esmagadora maioria dos bens restantes.

Ademais revelou propriedade ainda mais mirabolante, por certo congênita e exclusiva, essa de constituir-se em matéria-prima de si mesmo, o que realiza aproveitando-se de gigantescas ondas de espasmo de hordas de indivíduos em transe masoquista induzido pela perspectiva meio imaginária, meio real de abstinência forçosa dele, dinheiro, processo tal denominado 'especulação'. Esse termo, aliás, é curiosamente apropriado, justo por sua escolha fortuita, para designar o dito processo tanto quanto outro, famoso, 'metafísica', para significar o que se entende por filosofia no que tem ela de essencial. Suposto sugerir seja posição relativa em prateleira de biblioteca de uma entre as demais obras do autor, seja presumido encadeamento lógico para entendê-la no conjunto das outras, 'depois da física' passou por extensão a designar o conteúdo ele mesmo do tal livro, entendido como tratado acerca do que estaria 'para além do visível', 'para lá do mundo físico, para lá do mundo experimentado por empiria', associação esta que, ao menos do viés poético (por assim dizer), capturou os espíritos mais cultivados ao longo dos derradeiros dois mil e quinhentos anos. Por certo intentando designar a elucubração necessária à atribuição de valor monetário aos bens em geral, 'especulação' sutil e poeticamente sugere também o processo de multiplicar-se, de produzir-se o dinheiro em si e por si próprio: como se o fizesse valendo-se de postar-se de frente para espelho - embora o faça de fato a 'tração' emocional humana.

Enquanto símbolo, pois, concebido para representar em grandezas aritméticas tão-só atribuição de valor a bens, o dinheiro passa a significar também o ato de apreciar a si mesmo diante de superfícies refletoras de luz, hábito que se presume compartilhado por diversar espécies de bichos, mas que no domínio do humano assume importância incessantemente redimensionada a cada revisita a conhecida lenda. Como é evidente, vê-se ao espelho somente réplica, de todo intangível senão pelo olho e portanto, falsa, fajuta, ilusória, reprodução de que se perde o controle em razão direta da quantidade de reflexos produzidos. E tal processo, como é também evidente, tem por fim controlar o incontrolável, o mercado, ainda que somente essa porção sua exclusiva da esfera humana e ainda que se não o confesse em prol de preservar uma concepção de mercado 'livre'.

Sim, é verdade, é possível afirmar que como um todo o mercado não é controlável (em princípio por também não ser cognoscível enquanto totalidade), mas não por ser incontrolável de fato ou, como é costume dizer, por ser livre. Seria talvez mais adequado chamá-lo, em vez de incontrolável, de atualmente incontrolado em alguns de seus domínios, e talvez assim esteja por apenas não ser desse modo que se o controla. Porque o mercado, em particular este do domínio humano, primeiro, tem mostrado ser só esse incômodo rebuliço de indivíduos ensaiando controlá-lo, ensaiando controlar, na verdade, os indivíduos restantes (que em conjunto são, na verdade, em que consiste ele, mercado), cada qual por si e tendo por ferramenta o instável dinheiro. Segundo, porque todo esse alvoroço nada tem com 'liberdade', mas com confusão, com caos mesmo: liberdade não é condição inicial, não pode sê-lo; liberdade é fim, ainda que inalcançável, da determinação inata ao indivíduo de por de lado o quanto lhe estorva a ação. Assim, uma vez que tem sido o lugar do estorvo recíproco de sujeitos, mais adequado seria inferir que por mercado se designa o espaço onde cada ator busca conseguir, e é certo que sem sucesso cabal, a liberdade própria.

Dizer do mercado ser livre é, no mínimo patifaria intelectual, se não deficiência cognitiva. E não é por ser efetivamente caótico que tenha de ser dito indomável, em particular em se valendo da lógica equívoca ou mal intencionada derivada da alegação de que é livre. Fosse de outro modo relegaríamos ao laissez faire todo restante conhecido do mercado - que mercado de fato é - de que são atores, ao lado de nós humanos, miríades de entidades do sistema cujo todo chamamos Terra: como constatamos, vivemos de estabelecer, aí também, o controle possível e suficiente para livrar-nos de quase todo o mal, por vezes resultando em nada, por outras somente potencializando e agravando o delicado e precioso caos preexistente.

Portanto, e por fim, é tolo, repito, se não apenas mal intencionado, primeiro, pensar 'liberdade' como condição inicial e não como fim (e ainda que inalcançável na amplitude desejada) de ações de indivíduos de quem se supõe possuir e exercer a vontade; segundo, usar a ideia de liberdade para estabelecer e justificar uma 'Ética do mercado', quando o que o movimenta, mercado, é talvez a única Ética possível, que tem por cerne o indivíduo (e ainda que em muitos aspectos enunciada de forma errônea ou incipiente) - pois mercado é o mesmo que os indivíduos atuando uns com os outros, estes sem os quais ele, mercado, inexiste; terceiro, ignorar que o que já se faz e sempre se fez é o continuado esforço de controle sobre seja qual for a porção do mercado (uma de cujas táticas é alegar sua independência ou liberdade), o que é natural em princípio (pois se procura justo a liberdade, o afastamento, pelo sujeito, do que o estorva, como se mostrou), embora por resultado se tenha obtido nada além da permanente convulsão do confronto de desejos não conciliados; e quarto, descartar a hipótese de ser possível levá-lo, mercado, a um estado duradouro de equilíbrio e assim o conservar, pois é a esperança de obter justo isto o que nos vem motivando a manter-nos agregados faz eras.