03 setembro 2017

'Despotismo esclarecido do capital', outrossim dito 'neoliberalismo'

Que a imprensa embrulhe seus asssuntos para que pareçam novidade, é compreensível, pois vive do quanto vende. Já quando intelectuais, em especial os de maior estatura, fazem o mesmo, isto não se justifica com a mesma facilidade, nem se precisam vender seus livros. O desserviço desse gênero de estratêgia é incalculável, e no fundo não esconde a vaidosa pretensão de quem a usa de haver descoberto algo inaudito. Quando seu tema-alvo é a economia, então, a desinformação que promove é por certo a responsável por milênios de cultura da escravidão, em especial a voluntária e ignorante de que o seja, consagrada inclusive nas melhores leis trabalhistas.

Dizer que o 'neoliberalismo' retirou o centro das decisões públicas da esfera governamental e o entregou à esfera do grande capital privado ou que ele põe os trabalhadores uns contra os outros, se não o faz alguém profundamente ingênuo e alheio ao mínimo da História, é atitude de que se deve suspeitar, pois dá a entender que haveria solução para o capitalismo, uma vez desbancada a doutrina neoliberal, e que, consequentemente, já se viveu em alguma fase 'dourada' do sistema capitalista, duas mentiras vergonhosas. E isto, mais do que incompreensível, pode ser imperdoável se é alguém como Chomsky que o diz. Quando na História governos e capital privado não foram um único corpo decidindo os rumos dum país? Do século XIX até meados do seguinte é que se viu uma tendência dando a impressão de resultar em separá-los num futuro não tão imediato. Os movimentos ditos de esquerda, herdeiros da Revolução Francesa (e da Revolução Americana em alguma medida!), decerto tiveram papel nessa sutil e fingida metamorfose das administrações nacionais, mas é provável que tenham contribuído mais com soluções para os entraves de um capitalismo altamente mecanizado (e, portanto, produzindo mais rápidamente, mais amiúde, suas já consagradas crises) do que com as ações que promoviam para desestabilizar esse sistema. O capitalismo cai, e seguidamente, por conta própria, já que vive aos tropeços: desnecessário é empurrá-lo.

O problema da adoção de certas propostas da esquerda pelo capitalismo está em que estas aumentam a frequência em que o poder da população participa das decisões de Estado, tornando este muito mais 'pesado' - ou caro - do que jamais o foi, afetando um tanto mais do que antes, em consequência, as grandes concentrações de riqueza. Não foi à toa, tão-logo caíram alguns dos maiores impérios no cessar-fogo da primeira Grande Guerra e começam as repúblicas resultantes a estudar seus caminhos em direção à democracia (e já desandando tanto para os fascismos quanto para os totalitarismos), que começou a urdir-se essa ideologia, que não passa de elogio do capitalismo em essência ou do manifesto do 'despotismo esclarecido' do capital, em reação ao que seus autores identificavam como o maior dos perigos rondando esse sistema, o comunismo soviético. De início ela nem sequer se chamou de 'neoliberalismo', que era termo designando economia ou mercado livre com Estado forte - o que talvez não passe de uma concepção utópica ou mesmo contraditória, formulada no desespero da crise iniciada em 1929. Poucas décadas à frente é que os seguidores do 'laissez-faire' em economia - à la Hayek e Mises - tomam para sua proposta esse nome, que doravante passa a designar tudo o que com maior ou menor veemência (ou violência) a presença do dinheiro sempre produziu nas sociedades - entre outras maldades, governos em conluio ou totalmente integrados às maiores forças do mercado - e levando ou abrindo espaço para que se leve esse 'princípio' ao paroxismo (e aos paradoxos) de suas últimas consequências. Tudo sempre com muito orgulho, muita vaidade, como se aí se enunciasse lei da Natureza, algo de que até se pode tirar proveito, jamais contrariar.

De novidade, portanto, o ideário neoliberal só nos traz isto: uma justificativa para o que sempre ocorreu em virtude do uso do dinheiro, mas embrulhada no papel lustroso da Ciência Natural. De fato é inevitável que o dinheiro provoque o que lhe é próprio provocar na sociedade, e isto decerto confere um quê de  'naturalismo' à disciplina que o estude, pois estuda o que é natural dele. Entretanto nada indica não haver vida possível num mundo de que outra vez ele esteja ausente. O uso do dinheiro não é inevitável: e é esse o dano maior feito por noticiosos e intelectuais 'novidadeiros', mas equivocados quanto ao que de fato é novo nesse campo, ou somente mal intencionados: desviar a atenção de todos de pensar a vida econômica coletiva sob parâmetros diferentes.

08 agosto 2017

Da arte de destruir pelo desdém

Boas ideias seriam, em tese, 'duras na queda' ou imbatíveis quando confrontadas em seu próprio terreno, o das ideias, é claro. Fora desse contexto parece haver somente duas maneiras clássicas de combatê-las e de seguramente derrotá-las: a boa e velha caça às bruxas, dando fim em quem e no que as transmite, e ignorando-as. A primeira é historicamente a preferida por regimes de governo explicitamente intolerantes e em seus currículos de atrocidades são as entradas que mais os fazem desprezíveis. Já a segunda passou a integrar em definitivo a alçada governamental faz pouco tempo, sendo também conhecida como 'desinformação', embora não seja prática nada recente. Sua virtude está em poupar quem a emprega de ser acusado de ter as mãos injustamente sujas de sangue ou de ser um supressor da livre expressão.

É evidente, não é afazer trivial o desdenhar boas ideias. Ideias são desdenháveis, mas por outras, melhores, e aqui o pressuposto é o de que se combatem ideias boas, essas em oposição a que ainda não se achou ou de fato não há outra melhor. O desdém por ideias desse calibre, portanto, tem de ser operado por ideias que lhes são inferiores, embora tratadas como se não o fossem, o que se consegue pelo artifício árduo de repeti-las ad nauseam até se encravarem no senso comum, ou via recurso à autoridade, falácia clássica que consiste em usar um presumido especialista para refutá-las com argumentos de aparente consistência, provavelmente escorados na desinformação já bem sedimentada no senso comum, trabalho esse redutível a um aval sucinto, dependendo da reputação de quem o dá.

Para desapontamento dos aficionados, Platão e o platonismo foram expoentes na arte de ignorar boas ideias. Diálogos como Teeteto, Protágoras e Sofista são exemplos eloquentes na obra do primeiro de sua mestria no assunto: a sofística, em geral, e um dos seus grandes praticantes, Protágoras, em particular, foram por certo seus alvos preferidos. Deixou consagrados, contra uma, o desprezo por fazer de mercadoria a arte de argumentar, e contra o outro, uma imagem de ridículo construída com a análise de uma única sentença fora do seu contexto (Teeteto) e com um ardil aplicado por um Sócrates ainda jovem ao sofista já ancião, que só no final do debate se dá conta de ter defendido o argumento contrário ao que defendia no início (Protágoras). Já sob o rastro do platonismo desaparecem escolas inteiras de filosofia, enquanto outras são reduzidas a fragmentos, citações em escritos alheios, ao longo dos quase mil anos que durou a Academia, que o protegia.

A filosofia dos cristãos teria começado como auto-defesa numa Roma predominantemente dissoluta, corroída por seu poder imperial inédito, a que resistia um estoicismo indiferente às doutrinas saídas da Judéia. Bastou entretanto tornar-se Estado para passar o cristianismo à ofensiva no melhor estilo supressivo da modalidade 'caça ás bruxas' quando o opositor não se curvava a seus argumentos. O Método cartesiano ensaia minimizar o empirismo inglês e, mais recentemente, Russell finge ignorar detalhes cruciais do idealismo de Berkeley para desmerecê-lo, ambas as tentativas frustradas. E enquanto isso a ciência dita oficial, encastelada no que alguns rotulam de seu 'cartesianismo neo-platônico', ignora tudo que não lhe fale em seu rigoroso dialeto de números (incluídos os das somas bilionárias que deixa engordando no mercado financeiro).

No entanto nada parece comparar-se ao sucesso do capitalismo em suprimir pelo desdém as ideias que o contrariam desde que tropeçou com o coquetel de trivialidades hoje chamado de neoliberalismo. A rigor os governos que o cultuam jamais abandonaram a outra prática supressora, a sanguinária, tornada entretanto invisível ou minimizada ao máximo pelo domínio excelente que têm da informação: matam, até admitem, mas fanáticos, inimigos da liberdade e outras insignificâncias peçonhetas - não há contestar que o sejam! Aos olhos do comum o mundo em que vive parece gozar da perfeita livre expressão e da maior liberdade que espera assumir quando se trata de rechaçar quem ou o que identifica como anti-capitalista, enfim, acredita viver em democracia plena, tanto que, veja-se só, pode até assumir com orgulho ser anti-democrata ou, de pilhéria, anti-capitalista. Os resultados desse virtuosismo contra-ideológico são notáveis mesmo no campo dos que o combatem seguros de terem ideia nítida do que combatem: não é raro constatar nesses indivíduos sinais de aculturação crônicos, o mais acentuado dos quais o hábito de ignorar ideias que não lhes agradam quando não contam com argumentos para discuti-las, destas as mais ignoradas, mesmo tendo de memória e na ponta da língua truques para contestá-las, as ideias que induzem ao próprio capitalismo, tão interiorizadas as têm que nem se dão mais conta de as usarem. E, ora, ideias capitalistas combatendo o capitalismo? Estamos falando no paraíso neoliberal!

À guisa de observação final com tintas de humor sombrio,. hoje, com a eficácia da supressão pelo desdém, que faz tudo parecer ridículo, inexistem curiosidade e mesmo ideias capacitando seus portadores a reconhecerem outras de igual ou melhor qualidade. Frente ao presente marasmo intelectual e espiritual colorindo de ridículo cada recanto pensante do planeta, enquanto entes vivos que decerto devem ser, as ideias, em especial as boas, é provável lamentem-se de haver passado o tempo em que mormente se queimava tudo em que eram escritas e se aniquilava quem as defendesse. Tamanho suplício, em vista da comoção que despertavam, trazia consigo também a curiosidade, pois é evidente haver grande importância no que se procura afastar do conhecimento geral por meios assim violentos, o que dava a elas, ideias, ao menos alguma esperança de sobrevida aos cuidados de quem por isso mesmo as examinaria com a mais criteriosa das atenções.

04 agosto 2017

EM NOME DAS 'INSTITUIÇÕES'

A lógica jurídica do juiz Moro pode não estar tão capenga quanto alegam, só por ter desafiado Lula a provar a pópria inocência. É que para o juiz o caso está encerrado, está seguro de haver provado em definitivo a culpa de Lula, a quem caberia agora refutar seus argumentos.

Casos assim são mato no mundo real e hoje lhes seríamos por inteiro indiferentes se o mundo da carochinha de televisão, jornais, literatura e cinema se ocupasse de relatar deles o terço - abrindo mão, evidentemente, de falar em outra coisa, já que não teria tempo ou espaço para mais nada. Entretanto o pouco que nos dá dessas histórias escabrosas, se chega num embrulho sob medida para nos tocar o senso de justiça, tem por fim proporcionar emoção passageira, ainda que forte, e não o estímulo da reflexão: secadas umas lágrimas formais, damo-nos por satisfeitos com a sorte de que não éramos nós - ainda - no lugar daqueles infelizes, sepultando o assunto.

De momento me vêm à memória dois exemplos análogos, de indivíduos condenados tendo de provar inocência perante a convicção universal de serem culpados: o dos irmãos Naves, no nascer do Estado Novo, e o dos Quatro de Guildford, somados aos Sete de Maguire (três dos quais não eram de fato 'Maguire'), na 'liberal' Inglaterra dos anos 70. Em comum as duas histórias têm a ausência ou a falsificação de provas em nome de salvar da pecha de ineficiência as 'Instituições' de governo: como justificar perante uma população em alarme que a dispendiosa segurança de Estado foi incapaz de determinar o responsável por crime assombroso?

Tendo isto em mente, compreende-se que crimes sem solução são os de autor inimputável e dos quais, por azar, não foi possível obter o suficiente para um roteiro apontando alguém sem sorte para levar a culpa, sem falar naqueles cujas vítimas são por consenso desimportantes. À exceção dos que prescreveram e são lembrados para a emoção momentãnea de alguma platéia, crimes insolvíveis voltam à tona somente quando se quer chacoalhar as 'Instituições'. Já os resolvidos, é provável que bom número deles o esteja de fato.

O ordálio do Naves sobrevivente só termina quando o acaso o põe de frente com o primo, de cujo assassinato foi acusado com o irmão. Por essa época vivia a condição humilhada de ex-condenado tolerado na sociedade para que retornou na miséria a que se viu reduzido com a família depois do pesadelo de década e meia que lhe matou o irmão e violou a mãe e demais mulheres da família. Seu caso resumiu-se desde o início a demolir uma convicção a que só faltava a confissão, já que não se amealharam provas.

Não é que lhes coubesse, enquanto acusados, o ônus de se provarem inocentes: prova já havia, mas de serem culpados, a tal convicção dos acusadores, a que tiveram de ajuntar sob tortura a confissão. Tratava-se, pois, de demonstrarem a monstruosidade da convicção de que notificaram as autoridades do sumiço do primo depois de darem fim ao corpo e ao dinheiro roubado (parte do qual lhes pertencia de direito na sociedade que tinham com a suposta vítima), fatos de que meros leitores de folhetim policial deduziriam os óbvios culpados. Sua inocência custaria à máquina de Estado a reputação de incompetente: era jogo que perdiam para ela ao mover a primeira peça.

A justiça britânica não se prestaria a semelhante vexame: a convicção com que condenou os Conlon e os Maguire foi feita de confissões sob tortura, mas amparadas por provas, todas forjadas. Cerca de quinze anos foram precisos para o desmembramento do crime da máquina 'institucional' que ao fim lhes concede apenas pedido de desculpas. Como de fato ressarcir quem teve quinze ou mais anos de liberdade e a reputação roubados?

A doutrina dominante, intuitiva, é a da confiança nas 'Instituições', o que faz sentido, uma vez que de outro modo país nenhum se mantém uno por muito tempo. De maneira que ao sinal de caírem no descrédito tendemos a reformá-las ou, mais radicalmente, substituí-las. Há inclusive a tese de haver 'Instituições' inerentemente boas, embora não imunes aos desmandos de quem as toca. Afinal, por exemplo, centenas são libertados da prisão excedendo os tempos determinados nas sentenças, mas de outro lado a juíza que lhes fez justiça é punida: com a 'Instituição' se faz, mas se desfaz também, e muito mais.

Não há como ser de outro modo quando, para além das óbvias, consensuais e que não necessitam escrever-se, leis são criadas a granel com a proscrição de atos quaisquer e têm confiada sua observação ou aplicação a quem faz a vida com descobrir e castigar quem as descumpra. Um mundo ordeiro é deserto em que não sobreviverão os oficiais das 'Instituições', assim como um mundo sadio é o inferno de medicina e farmácia assim como as compreendemos: como o crime para quem o caça e pune, a doença é perspectiva de riqueza para quem a cura, enquanto cura e sem garantir que curará.

Diz-se que o viés acentuadamente profilático da medicina chinesa tradicional se deve a que na China antiga só se remuneravam os médicos enquanto não houvesse doentes entre os indivíduos sob seus cuidados. Inspirados nesse modelo, nada impede de imaginarmos 'Instituições' resistentes a nossa índole instável, cujos salários só vigoram se no Estado há ordem perfeita, a felicidade da ausência de coerções. Nessas circunstâncias é possível que legisladores, magistrados, polícias e demais servidores 'institucionais' se tornassem investigadores incansáveis do bem-estar, cientistas sociais capazes de identificar as causas de malfeitos, mais do que sua provável ou iminente ocorrência, e de conceber maneiras de contê-las pacificamente, antes de se tornarem eficientes.

21 fevereiro 2017

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Ter visão própria do mundo - algo que é bastante existir como consciência para ocorrer - e, ademais, confrontá-la a outras para simples verificação ou teste de sua consistência tem estado por tempo demais na categoria dos atos da mesma natureza do chamado 'bullying'. E ainda nos esforçamos para acreditar que o fascismo é algo que "vem em ondas", não aquilo na índole humana que tem de ser diariamente varrido, espanado, lavado antes de - ou preferencialmente a - se fazer o mesmo com outras quiquilharias ao redor.

10 dezembro 2016

Dois sentidos de 'coprofagia' na declaração de Francisco

O conhecimento do bem - ou o sentido para ele - é, ao que tudo indica, inato, como observou Epicteto há dois mil anos. O recém-nascido reagirá com clareza ao quanto lhe agrada ou desagrada, indicando já possuir o suficiente para de futuro desenvolver a compreensão de instâncias mais complexas de bem e mal. O sentimento de nojo parece ser uma manifestação suficientemente específica da mais genérica expressão de desagrado e segundo pesqusas desenvolver-se-á por volta do terceiro ano de vida. Parece também ser sentimento moldado pela cultura, uma vez haver pouca concordância entre indivíduos originários de distintos pontos do Planeta sobre o que lhes  inspira nojo, em meio a que é muito provável estarem as fezes.

Desse modo a comparação recentemente feita pelo Papa entre o consumo de notícias falsas e a coprofagia tem ao menos dois sentidos graves enquanto denúncia do modo de comportar-se de nossa sociedade. O primeiro diz respeito à infantilização: na primeiríssima infância tendemos todos a experimentar o sabor das próprias fezes, pelo menos, movidos pelo impulso de conhecer, que nesses tempos é fortemente guiado pelo paladar, além de pelo tato e pelo olfato, como tem informado a psicologia, e a compreensão de não se tratar de alimento virá depois de orientados para as rejeitarmos, manifesta no sentimento de nojo. Francisco descreve, assim, a intelecção inepta, infantil ou mal formada desses consumidores de mentiras jornalísticas, as quais têm por finalidade alijá-los de decisões cruciais concernindo seu próprio bem-estar na sociedade. Segundo ele a imprensa seria claramente coprofílica e em seu vício induziria o comportamento coprofágico da audiência, suposta inocente.

Entretanto fala-se aqui mormente em adultos que, embora não livres de infantilização intelectual, em grande número possuem boa escolaridade, além de acesso a outras fontes de informação que nestes tempos estão disponíveis na Internet em particular, por conseguinte tendo o suficiente em condições para formarem juízos diversos valendo-se do único método conhecido para esse fim, ou seja, o confronto de contrários ou contraditórios. Dizendo o mesmo em outros termos, é provável haver grande número de intelectos infantilizados entre os consumdores de factóides sensacionalistas da imprensa comprometida com políticas sociais regressivas, mas há também quantidade apreciável de indivíduos com plenas condições de constituirem juízos melhor fundamentados e que evdentemente as rejeitam. Trazendo para esse contexto a declaração de Francisco, há nela a distinção entre coprófilos, ou os forjadores de factóides, e coprófagos, o público destes. Dado haver dentre os consumidores esses com possibilidades de realizar o confronto de contrários e contraditórios com as notícias falsas, ora, eles estariam alinhados entre os que, como os jornalistas que as elaboram, extraem algum prazer do consumi-las, tratando-se portanto de coprófilos igualmente.

Mas a coprofila, ainda que desprezável por quem a não pratica, pode ser definida como sentimento autêntico por seu objeto. O coprófilo é suposto ter afeto, como indica sua designação, por isso que todas as culturas em tese rejeitam com mostras de nojo. Já quanto a 'coprófagia', é termo designando somente ingestão de fezes, a qual pode ocorrer de duas maneiras apenas: ou por inaptidão intelectual e, consequentemente, por não haver-se constituído o sentimento de nojo, como no caso da primeiríssima infância, ou por deliberação de subverter um consenso ainda que em prejuízo próprio do subversor, algo diretamente associável ao ato de terror suicida. A predileção específica por notícias falsas, de hábito caluniosas e bombásticas, não seria enfim fenômeno mensurável na quase totalidade dos praticantes da 'coprofagia' denunciada pelo Papa, nem na dos que diretamente associou à 'coprofilia', o que é com facilidade comprovável nas circunstãncias em que são eles os alvos da difamação: para um verdadeiro amante de dejetos não deverá haver problemas em que lhe atirem aquilo que autenticamente apreciam.

Este o segundo e mais grave sentido passível de extrair-se da declaração que, vindo de religioso com a reputação de Francisco, torna-se ainda mais séria, se tal é possível: teria implícita também a identificação, nessa forma de subversão social, de tintas de satanismo, que do ponto de vista cristão é a ritualização de todo o mal que tem por missão combater. Com grande sutileza - mas é possível também que involutariamente - Francisco faz coro com a seção não menos sensacionalista, entretanto, do folclore contemporâneo que acredita ver sinais de seja o advento, seja a presença real de Satã nos desdobramentos de fatos planetários nos recentes anos. No entanto, é mister observar, seguindo o seu já consagrado método de separar o alegórico, com frequência tido por factual, do genuinamente ético na doutrina de Cristo, não seria em absoluto justo supor que use da posição de Pontífice para fazer sensasionalismo: ao contrário, esse aspecto gravíssimo do que declarou  insere-se na metodologia mencionada na medida em que oferece fato - por conseguinte, palpável, cientificamente testável, por assim dizer - para demonstrar que o mal é apenas  ponto de vista, opinião, embora de hábito bem fundamentada pelas vítimas de atos de quem ignora que sua busca pelo que acredita ser bom só resulta em catástrofes, pelas quais será vitimado também.

De modo geral precisamos compreender melhor as meias verdades de ditados como 'o inferno está cheio de boas ou das melhores intenções' porque de intenções iguais o céu estará igualmente repleto e o que diferencia um do outro é, de um lado, aquilo em que resultaram tais intenções, o bem ou o mal, e de outro, o que determinou seus resultados, ou seja, uma maior ou menor ignorãncia do sujeito quanto ao que fez. O inferno, pois, seria o lugar dos mais ignorantes, condenação á primeira vista inequivocamente injusta. Observe-se, entretanto, que a condição perene de ignorãncia é um dos pouquíssimos conhecimentos certos, de comprovada validade, que possuímos, o que acarreta ou conformarmo-nos e, assim, até nos comprazermos nela, ou nos empenharmos em seguir dissipando-a o quanto nos for possível, parecendo não haver dúvida de ser esta última escolha a mais correta. Que se refine então, em vista disto, a afirmação quanto ao inferno ser o porto final dos mais ignorantes - o que em tese o céu poderia ser também - acrescentando-se que o maior pecado dos assim condenados seria justo a tolerância e mesmo o comprazimento de sua condição de ignorantes: precisamente o que parte considerável dos coprófagos das falsas notícias é suposto ser, CQMF (ou Como Quis Mostar Francisto).

19 novembro 2016

Argumentar não é para qualquer um.

Isto não é o mesmo que dizer que há humanos normais, plenamente funcionais e, no entanto, incapazes de argumentar. Que fique claro que semelhante aberração inexiste. Desde que em condições regulares o aparelho biológico humano favorece o bom senso.

Mas é como qualquer outra habilidade inata essa da argumentação. Devido à constituição somos todos capazes de chutar, por exemplo, entretanto só os mais aplicados no exercício do chute conseguem fazer adequado uso de uma bola no futebol ou acertar com precisão cirúrgica o pé onde é mais doloroso para um oponente.

Somos todos propensos ao bom senso. Mesmo meus cachorros e gatos o eram, guardadas as devidas diferenças entre as suas e nossa constituição. Mas há limites no usá-lo, superados somente a duras penas - na verdade nem tão duras assim quando há no praticante boa vontade.

Sem essa predisposição não há debate ou, quando muito, há bate-boca. E sem o bom debate é o próprio bom senso que se vê prejuticado porque, como teria observado o sofista Protágoras há dois mil e quinhentos anos, a razão é uma construção coletiva e não ou não tanto aquele edifício perfeitamente acabado que nós, qual cegos, vamos tateando para fazer idéia do que e de como é.

É Iván Izquierdo, neurocientista brasileiro de origem argentina, quem mostra o caminho das pedras para a compreensão do motivo de a razão ser e ter de ser obra de todas as mãos possíveis e de boa vontade - e às vezes mesmo das de má vontade, já que a propensão para pensar não é com facilidade refreável e termina por gerar eventualmente bons palpites, mesmo à revelia dos palpiteiros. Izquerdo, assim, observa que em tudo já produzido pela neurociência jamais se encontrou vestígio de separação entre o que se chama de razão e de emoção, isto é, no quanto se julga ser racional na atividade da mente há 'contaminação' de sentimentos e emoções e vice-versa.

Enfim, é fácil ver, como já viam pensadores como Epicteto e Epicuro, que a razão é tecido feito com o fio de tudo quanto se sentiu, é modo de organizar a sensibilidade (aí incluída a emoção) que pode começar, por exemplo, ensinando-nos que nem sempre obtemos o mel enfiando intempestivamente a mão nua na colméia. E como de um para outro de nós varia a sensibilidade, ainda que dentro de certos limites, nada mais natural que busquemos fazer dessas diferenças o tecido consensual que chamamos de razão e que, insisto, só é viável porque a despeito das discrepâncias guardamos muito - e como! - de traços em comum.

Além disso imagine-se que à medida em que cresce em complexidade esse outro tecido, o das relações sociais, aumenta - e, eu diria, exponencialmente - o quanto vem ajuntar-se ao tecido compartilhado de sensibilidades, fazendo dessa tecedura verdadeiro projeto de vida. É evidente, nem todos parecem dispostos a dedicar sua existência à tecelagem do bom senso, abrindo mão de, por exemplo, rega-bofes, bate-coxas e, mais importante ainda, de sobreviver nesta selva criada pelo humano para escapar da outra, que o mundo lhe deu.

Hoje a especialidade mais comum, mais difundida entre nós é a da sobrevivência a nós próprios, as demais áreas da vida sendo delegadas aos que crêem ter mais afinidades com elas ou se julgam remunerados bem o bastante para tratar com exclusividade do que não é exclusivamente seu. Da faina desses outros especialistas os especializados em sobreviver ficamos com somente o que concedem eles em divulgar ou, mais provavelmente, com o que desse tanto fazemos sentido.

Para lá de certo grau de complexidade, então, erguemos o braço e estalamos os dedos até que nos atenda algum desses delegados, o que pode tornar um debate em espera maçante ou, pior, frustrante, porque nada garante que esse sujeito saiba como resolver a questão. Portanto se você acha que a solução de nosso entrevero sócio-político passa pela argumentação, como de fato, inequivocamente passa, prepare um bom farnel com paciência acima de qualquer outro artigo necessário, embora sem deixar para trás o bom preparo físico e mesmo um razoável colete à prova de balas: pelo caminho é bem provável topar com tipos para quem a solução de toda pendenga só se dá à base de tiro ou cacete.

26 outubro 2016

Inspirado num destempero de Ministra

Parece que não, mas há algo de desumano em tratar pessoas a partir de um título: Doutor Fulano, Maestro Sicrano, Juiz Beltrano e assim vai. Sempre me incomodou ser abordado desse modo porque nele se embute uma fieira de cobranças ou expectativas que é humanamente impossível honrar. Uma ideia do que refiro pode ser tida imaginando-se, por exemplo, o custo, para alguém minimamente responsável, de ser chamado de Doutor quando diante do leito dum desenganado.

É verdade que se acerta muito - que acertamos muito - e que mundo afora há número impressionante de compromissos honrados, o suficiente para calar, por estupefação, qualquer pessimista. Mas honestamente e de si para si (que se dispense a confissão pública) nenhum acertador ou honrador de compromissos em sã consciência negará o papel do acaso - da sorte - em seus feitos, ainda que imodestamente o admita modesto. Seria uma temeridade fazer o contrário porque, talvez aborrecida ou magoada, quem sabe a sorte lhe falte na vez seguinte, e aí o sujeito continuará contando com apenas a arrogada competência própria para explicar o malogro: verdadeiramente o que se chama de 'saia justa'.

É certo que títulos correspondem a afazeres ou funções projetados por humanos, mas é certo igualmente que humanos somos incorrigivelmente pretensiosos e quase que como por divertimento vivemos de maquinar maneiras de nos superar, de nos transcendermos - como enchemos o peito para dizer. Com se fosse fácil conseguir mera e simplesmente ser gente!

É possível que, por conta do esforço de tornar-se mais que humano, em alguns sujeitos os títulos lhes tenham colado às caras (como advertiu Pessoa), abrindo assim as comportas para inundar a já custosa faina de ser somente gente daquilo que se pode chamar de efemeridades eminentes, sorte de zoológico de absurdidades que se algo em comum têm é essa demente presunção de haverem deixado para trás a condição humana. E, aqui entre nós, nada mais natural que se trate de monstruosidades, e em tudo distintas entre si, exceto em serem monstruosamente presunçosas, porque a verdade é que ninguém faz qualquer idéia do que venha após o humano, em particular enquanto este não cumpre as tarefas mais comezinhas da condição de humanidade.

Assim de cabeça me ocorre exemplo histórico, o de sujeito que, além de rei, concedeu em ser chamado de Sol e, num espasmo de seu desvario, atreveu-se a equiparar-se ao próprio Estado: como se os demais indivíduos inexistissem, como se Estado não fosse exclusivamente a reunião destes sobre um naco de terra, como se o termo não designasse como esses sujeitos estão, como atuam entre si - e no que infelizmente se tem incluído até tolerarem, sem que se precise até que ponto, bravatas desse calibre. Mas apesar de em sucessivas revoluções vir o povo mostrando, nos derradeiros duzentos e tantos anos, o que ou quem é com efeito o Estado, exemplos de desrespeitos desse gênero têm-se multiplicado: ainda hoje baixamos a cabeça para a ignominiosa sinonímia de Governo e Estado, sem nos darmos conta de que em aceitando-a nos fazemos qual reses que para lá de curral e pasto têm por destino alternativo apenas o matadouro.

Que a insistência na crueza da metáfora me seja de algum modo perdoada, mas é necessária a contundência próxima do ferir para acordar sentidos tão entorpecidos quanto os nossos estão: é provável que por conta de não levantarmos a cabeça do cocho tenhamos concedido em que os de máscaras coladas à cara ditem, façam praticamente tudo em nosso nome - e não por nós: quem sabe de lei é exclusivamente o legislador, de justiça, o juiz, de lucros, o patrão, de economia, o economista, de saúde, o médico, de música, o músico, de filosofia, o filósofo... Ora, e o que esperar de titulados, todos incumbidos das respectivas obrigações supra-humanas, senão que pensem e ajam segundo essas suas apostas condições, em que estão seguros de terem deixado no passado a condição de reses? Nosso marasmo vem do que dizemos sem antes o termos pensado, vem do que outros, em suas delirantes e abjetas condições, têm-nos posto para dizer. A crise nossa é da ideia, que virou miragem e da qual nem mesmo nos atrevemos a nos aproximar para constatar se lhe falta consistência.

E que não me chamem - sequer por ironia - de mestre ou doutor pelo que escrevo: teria tristes conotações. Em fim de contas, como é visível, eu apenas acabo de acordar.

Induzindo um sonho

Essa mania minha de ir muito direto a certos pontos tem lá seus reveses. Ela parte da convicção de que refiro quem certamente sabe mais do que sei, no que estou seguro de estar certo. O problema aí advém de uma bobagem, um esquecimento meu: o de que em geral se está pensando o mesmo de mim (evidente erro!) e no fim me vejo atribuido de intenção que não tive.

Nos últimos tempos meu foco tem estado sobre a lógica do dinheiro, sobre aquilo que se tem mostrado inevitável no seu uso. Em vista das polêmicas rodando o País - e o mundo - ultimamente, não vejo como ser menos direto quanto a isso, em especial por estarmos todos numa perpétua campanha por reformas diversas e à qual não me sinto menos compelido a aderir. Como qualquer outro de nós, procuro fazer essa adesão de maneira crítica, o que não passa do previsível: apontar obscuridades e trazer para elas a luz que cada um pode, pois apesar da alguma balbúrdia que se forma nesses lugares, a esperança é ainda a de que muitas mãos possam complementar-se na realização do trabalho, que examiná-los com múltiplos olhos pode esclarecer mais do que com apenas um.

Assim é que tenho procurado mostrar como no meu entender o tema, que é limitado pelas leituras que faço e vivências que tenho, certas sugestões de mudanças parecem resultar ineficazes, porque, como pus acima, no caso do dinheiro há efeitos do seu uso que são inevitáveis, por mais que se acredite ser possível 'domesticá-lo": coisas de sua natureza, ou seja, sem as quais ele deixa de ser o que é, dimheiro. Minha posição não tem como ser mais clara: voto por sua sumária extinção, mas - é evidente - não deliro achando que isto se consiga, nas condições atuais, da noite para o dia.

Não tenho dúvida de que o mundo sem ele seria indescritivelmente melhor, mas entendo também que nos derradeiros séculos ou milênios não nos temos feito com a necessária fibra para tolerar sua ausência. Viver sem moeda é coisa para uma natureza fortificada física e ainda mais eticamente. Mas assim como nos fizemos no que somos, não duvido de sermos capazes de nos fazermos de outros modos, inclusive num que nos habilite a viver num mundo de exclusivo compartilhamento, em que as idéias de troca e concorrência não passem de memória de um longo e mal sucedido experimento social.

E isto só se consegue em se pensando no assunto, principalmente nas atuais circunstâncias, em que número crescente de pessoas vem identificando esses pontos nocivos, sem entretanto lhes dar os nomes apropriados, quase sempre mostrando-se receosas quanto a admitir que aquilo que lhes é fonte de certos prazeres o seja também de seus maiores desapontamentos. Uma reação comum à introdução da proposta de extinguir o dinheiro nesse contexto de íntimo conflito de interesses é classificá-la como pura fantasia, idealismo, ou seja o que for no gênero: como se não fossemos todos afeitos a fantasiar, idealizar, embora às vezes em assuntos sem maior importância ou consequência! Assim, por que não incluir este na lista pessoal de sonhos em vigília e, para os recatados, dividir com os mais íntimos sua interpretação?

Sequer é preciso estipular um regime diário para o sonhar, haja vista o sem número de ocasiões em que de hora em hora se é acossado por algum aspecto, mesmo sutil, do desconforto, da deselegância e até da destrutividade da existência do dinheiro. Nessas ocasiões é sempre oportuno - por instrutivo - indagar-se sobre a possibilidade de corrigir ou eliminar aquele seu descômodo sem para sempre abrir mão de tê-lo no bolso. Com a devida persistência no método - apoiada, se necessário, em alguma literatura pertinente - em pouco tempo iremos habituando-nos à recorrente, inevitável resposta para essa questão: não!

20 maio 2016

Entender o Brasil agora

O golpe contra a brasilidade vai muito além da usurpação do eterno interino. Ele produziu inimigos de morte habitando os mesmos lares, na porta ao lado, no desconhecido que cumprimentávamos por cortesia. Transformou idiotas em armas letais, fez legião de ingratos de miseráveis históricos depois de comerem, vestirem e estudarem pela primeira vez em séculos e tirou da vergonha em que se ocultavam ou dissimulavam as verdadeiras forças do mal herdeiras de escravismo e ditadura. O Brasil não poderia parecer mais insolúvel e no entanto tão à beira de uma solução - a final?

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Mais do que a cara da direita, que circulava pelas sombras da vergonha coberta de ódio e pulsava como um feto pútrido no interior dos idiotas, a humilhação do golpe mostra ao brasileiro a nudez de corpo inteiro de sua esquerda. Em nada diversa das demais nudezas de quaisquee nacionalidades, falha em esconder que nunca esteve vestida senão dos destroços e farrapos que deixam sobre nós os fracassos do capital em fazer do mundo lugar digno do próprio nome.
Se chega ao poder, não é por lhe ter o povo apreço especial, mas  por oportunismo geral, à guisa de equipe de resgate em catástrofe consumada, arriscando-se por isso à execração sumária, caso não recobre as vidas todas, ou à santidade perigosa dos mitos, e assim tender a se fazer presa da própria imagem ao espelho. Entretanto é mais comum circunstãncia mais singela, em que se submete à pecha de serviçal de faxina nas ressacas seguindo as esbórnias do dinheiro.

Feito o serviço, se acaso deixando a desejar, é caçada e abatida, decerto merecidamente, e se a contento, é de quqalquer modo escorraçada, passando então a vagar nua e louca pelos becos, choramingando e rogando pragas, ignorada por quem se apruma, garçom ou conviva, a caminho do festim novo no endereço que faz pouco acabou de limpar. Passará a noite entre resmungos inúteis e gestos obscenos à volta da balbúrdia, até que na madrugada o tempo a console e a faça sentar nos degraus do portão enquanto não vem o sol, para só então usar a entrada dos fundos e nas pontas dos pés beliscar as sobras em torno dos corpos cheirando a embriaguez e aproveitar-se dos roncos para arrastar cuidadosamente os móveis e esfregar os cantos.

14 maio 2016

'Eles'

Não é à toa que 'eles' dizem o que querem, doa em quem doer (desde que não neles próprios, é claro). Desenhando: a lei, por princípio, é o dispositivo estabelecedor do crime, ou seja, nela se diz o que é e o que não é crime. Tão fundamental é esse princípio legal, que está estampado na Constituição: não existe crime que não seja prescrito em lei - reza, mais ou menos assim, o texto magno. 'Eles', assim tão mal na foto, são o Legislativo: os que escrevem a lei, portanto. Por lei, não estão nem podem estar acima de lei nenhuma, o que não tem a menor importância, pois na realidade estão antes de todas.

Em causa própria ou em nenhuma outra causa

A maior contribuição do Brasil para a ciência política ainda estará por reconhecer-se, mas só depois de esta jogar por terra o prurido de admitir seu axioma fundamental. É aqui no País que se tem demonstrado para além de qualquer dúvida que todo indivíduo, de necessidade político, só atua - só pode atuar - em causa própria.

Nada mais natural que assim seja, pois ameaçada ou perdida esta causa, que em importância é primeira, todas as demais que defenderia deixarão de ter vez. A arte do embate político, portanto, resume-se em pôr permanentemente em xeque a causa própria de todo opositor, desse modo trancando a possibilidade de que cogite invocar outras, as causas comuns, compartilhadas, fragilizando-lhe a capacidade ele fazê-las prosperar.

É incomum a causa própria do indivíduo ser a mesma de um outro e mais incomum ainda que seja a de grupo de indivíduos; entretanto toda e qualquer causa própria tem por eixo ou fundamento a sobrevivência, ou seja, a busca do indivíduo por manter-se vivo, que pode ser dita a 'causa própria universal'.

Das causas comuns - ou causas partilhadas - pode dizer-se  serem constructos abraçados por mais de um indivíduo por abrigarem ao menos uma causa abraçada por cada um deles e, no mínimo, a 'causa própria universal', podendo estas duas ser, inclusive, uma e a mesma.

Como é evidente, a 'causa própria universal' não possui por si 'corpo', senão excepcionalmente. É inteiramente geral, 'substancializando-se' em outras causas próprias, que lhe conferem a possibilidade de ter algum efeito. Quando 'substancializada em si mesma', excepcionalmente, a 'causa própria universal' se constitui na manutenção imediata dos sistemas vitais do indivíduo, o que habitualmente a condição gregária tende a prover para a grande parte ou para a totalidade dos elementos na grei. A 'causa própria universal' é a essência ou o eixo das causas próprias palpáveis, ainda que entre si conflitantes, e todas as causas, mesmo as coletivas, têm por raiz - ou eixo, ou  essência - a 'causa própria universal'.

Num sistema de gestão da 'coisa pública' admitindo a representatividade a posição de representante de subgrupo da sociedade determina uma causa própria peculiar, que é a de o indivíduo conservar-se na condição de representante, isto é, a de manter-se na assembléia de representantes. Do jogo político de que consta a representatividade, portanto, é parte inalienável algum empenho de cada representante, visando a prevalência da causa comum que foi instado a defender na assembléia, em ameaçar a estabilidade da condição representativa do outro.

Embora inseparável do jogo político representativo, o empenho dos representantes em reciprocamente por em xeque suas estabilidades enquanto representantes é fator cujo abuso e descontrole generalizados é comum determinarem seja o caos do sistema, seja sua estagnação. Para que a administração pública avance é preciso que o embate ocorra no plano das causas comums defendidas por cada representante, servindo o embate no nível das causas próprias como instrumento circunstancial de pressão em apoio às disputas no outro nível.

O embate das causas comuns ou coletivas defendidas por cada representante é suposto se dar pela avaliação de qual ou quais delas oferecem as maiores vantagens e os menores danos para a comunidade como um todo, decorrendo, pois, no âmbito da argumentação técnica, onde com exclusividade é esperado resolver-se. O uso do embate  no nível da causa própria de cada representante, portanto, deveria ser desnecessário, sendo sinal de algum tipo de fragilidade do tecido político quando presente, tendendo a disseminar-se e a prevalecer, caso providências não sejam tomadas para estancá-lo ou para, no mínimo, mantê-lo em patamares toleráveis. Perdido esse controle mínimo sobre ele, tende a tornar-se a face visível das assembléias de representantes, postergando ou eliminando por completo o debate sobre as causas comuns.

O único fator com capacidade suficiente para contornar assmbleias de representantes em caos ou estagnadas é a opinião pública forte ou organizada, que pode agir tanto diretamente, pela massa de cidadãos, quanto indiretamente, quando apóia em massa um representante e assim o capacita a resover o óbice, recolocando em pauta a discussão das causas coletivas. É entretanto possível que o embate de causas próprias dos representantes contamine as massas, impedindo-as de tomar as rédeas da situação, impedindo-as de organizar-se, desse modo pavimentando o caminho para a desordem geral, o embate disseminado, a guerra civil. Circunstâncias como essa tendem a permanecer indefinidamente ou até que as perdas determinem seja a eliminação ou o suficiente enfraquecimento de uma ou mais das facções envolvidas, seja a trégua para negociação, que não passa do estabelecimento ou restabelecimento das causas comuns.

Diante desta exposição é possível talvez mensurar a estabilidade de uma nação e os riscos a que está sujeita avaliando-se o comportamento dos representantes quanto ao uso ou abuso do embate de causas próprias enquanto dispositivo de pressão para a viabilização das causas coletivas que debatem. A maior visibilidade do debate sobre causas coletivas, então, é sinal de o sistema conservar-se estável e quanto mais visível é o embate de causas próprias, maiores a instabilidade e o risco de contaminação da esfera dos cidadãos. Há também a circunstância de entre os representantes prevalecer o embate de causas próprias e este não ter a visibilidade que lhe caberia, sinalilzando a possibilidade de o embate em torno às causas comuns estar sendo utilizado como cortina de fumaça para o outro, o que seria detectável pelos recorrentes impasses ou alguma estagnação do país determinada pela escassa coerência dos projetos aprovados, ocorrendo mais perdas do que ganhos para a população em geral.

Assim que em termos ideais é imprescindível que a causa própria de um representante e a causa comum, por ele representada, se impossível coincidirem, sejam quase a mesma ou tenha esta última a anterior por eixo, de modo a garantir que a consecução de uma se articule na consecução da outra inevitavelmente. Fora dessa perspectiva a atividade política representativa não procede, estanca. Isto porque o princípio por trás desse panorama estabelece que só se vive em causa própria ou em causa nenhuma.

Punição preventiva e perfil da Justiça: entrelace de meditações

Sendo embora tema caro à ficção, a precognição de crimes não é 'instituto' - diria o rábula - com que se possa ou mesmo se deva contar no mundo real. Representa o anseio hiperbólico de livrar de delitos o mundo atacando-os in utero, quando ainda são possibilidade. O instrumento mais próximo que se possui disto é a lei, que em si e de fato não prevê nada além do que em seus termos é delineado das ilicitudes, não sendo necessário que venham ocorrer tão-só por estarem ali descritas. Não bastasse consistir na resposta a atos considerados de algum modo e em algum grau incômodos ou inoportunos, tais atos têm de necessidade, portanto, já ter ocorrido (pois não parece justo ou são legislar sobre atos hipotéticos, exclusivamente potenciais, jamais observados), o alcance futuro da lei pode ser, quando muito, obtido na forma de preventivo. Previne por prescrição do que se pode ou não se pode - ou do que é devido ou indevido - fazer e por cominação, porque - esclarece o rábula - prescrição alguma faz sentido sem a contrapartida que induza a acatá-la: parece não bastar ao humano lhe apontarem o caminho do bom sem, ato contínuo, espicaçá-lo para que o tome.

Fora desse âmbito parece não apenas injusto, mas insano, falar-se em prevenir crimes dum ponto de vista judicial. É certo, entretanto, que o posicionamento de polícia onde é habitual ocorrerem malfeitos pode sugerir cautela excedendo essa indicação, mas é bastante compreendê-lo como representação viva da prevenção na lei, simbolizando a um só tempo e potencialmente prescrição e cominação, isto é, desde que conserve a condição pontencial até ser explícita e inequivocamente instada a atuar, é claro, coibindo e, em justa medida, punindo o ilícito efetivamente cometido. Em outros termos: não é facultado ao agente da lei adivinhar ocorrência de crime. Fosse o contrário e não sendo ele, por exemplo, vidente, a sociedade tenderia a constituir-se em gigantesco sistema prisional e as leis em indutoras de insanidade mental em seus agentes.

Punir preventivamente, portanto e se pouco, é monstruosidade - 'teratologia', atalha o rábula. Punição é jargão jurídico para vingança e que eufemisticamente se acredita denotar reabilitação eventual para o condenado de crime e lenitivo para o lesado por ele. Em si mesma ou enquanto fato não é garante de uma coisa ou de outra, demonstrando que a justiça só se projeta no futuro, exclusivamente em potência, por intermédio da lei e de seus agentes, e perante quem os cidadãos se permitem coibir-se de produzir malfeito à hipótese de serem punidos. Os demais, insensíveis à cominação legal, acreditam ser seus atos eles próprios expressão da justiça, supostamente contemplando o que a lei, por motivos nem sempre nobres ou justos, teria escolhido omitir.

***

A Justiça, ela mesma, não é cega. Não se pode anuir a que o seja sem incorrer em equívoco sério. É dedutível que possua o sentido da visão porque do contrário seria despropositado vendar-se, salvo se por motivos estéticos ou de autoestma. Permite, então, que a vendem e só para a presumirem isenta, imparcial, não exclusivamente quanto a quem, mas também quanto a o quê. Seu sentido privilegiado é o ouvir, não por ser cega, insista-se, mas por não ter visto o que irá julgar, porque atua depois de ocorrência extraordinária. Sua matéria, pois, é o que outros viram e então lhe narram: por isso ouve e exaustivamente, a saber, versões até opostas, contraditórias do fato, à medida que as depositam na balança que traz na mão. Sua matéria é o verbo puro, do qual retirará a verdade possível em meio ao que em primeira abordagem pode saber a paradoxo. E a retirará pela extrema sensibilidade do tato dizendo-lhe o peso relativo dos pratos pendentes.

Em sendo indicativo de que julgará pelo que ouve por não ter visto, a venda o é também de que foi chamada, instada a dirimir dúvida, impasse, e de que só o faz quando convidada. Agir de outro modo seria trocar-se por estranha, a tirania, ou por figura que tomam por si, embora possua asas, a vingança - Nêmesis. Para a Justiça o mundo, como o indica seu homógrafo adjetivo, é puro e tende a resolver-se sem necessário ser que interceda senão quando convidada. E até que inicie e mesmo até concluir seus trabalhos tem de conservar-se assim, na presunção de que trata com o puro até que se demonstre, se prove, o contrário. Agir de outro modo seria passar-se por vate, arriscar-se em profecias, e esse é definitivamente um papel que a Justiça reluta em desempenhar, o de antever seja o que for - considerando que já não viu o que foi - e eis, daí, mais uma razão para ter-se feito vendar: não pode, não deve arriscar o olhar adiante.

Faz tempo vem-se recusando a Justiça a entrar em cena portanto mais do que a balança. Concedeu em empunhar espada por tempo demais, em claro desalinho com sua real natureza, demonstração esta de ter sido em extremo gentil com cessão assim duradoura. Espada foi sempre instrumento de Nêmesis, jamais tendo encontrado a Justiça ocasião de usá-la, pois punir é instância extrema da lei e antes tendo em vista prevenir o que ali se prevê, isto é, a incidência ou reincidência em falta: e fora justo ou razoável castigar, que sentido teria ungir o humano com os dilemas do livre-arbítrio se fosse ele previsível como a queda livre dos corpos? Por isso ela não faz leis, por serem intrinsecamente preventivas e deverem para tal prever punições, cominá-las - corrige o rábula. Por conseguinte, também não pune, já que punir tem parte com prevenir, que pressupõe prever, antecipar o imprevisível. Ela julga apenas e apenas segundo critérios que lhe fornecem os próprios homens, que são as leis. Quem pune são os homens, orientados ou auxiliados pela vingança, cuja espada é sinal dos seus ardis, e as asas, da pressa e da presunção indutiva (como a de conceber o futuro).

Enquanto espírito que possui o humano antes de permitir que o encarne Nêmesis, a Justiça tem, sim, alguma participação na cunhagem das leis, oferecendo sua balança à guisa de norte ou farol, mas não por isso permite-se interpretá-las quando em ato de julgar: seria interferir, rasurar, reescrever o que é de responsabilidade exclusiva do homem, fugindo inteiramente ao seu perfil arriscar em jogos dessa natureza o próprio equilíbrio. Quando muito colige, em meio à prolixa, desatinada e deseseperançada busca humana por equidade que constitui as legislações, o que concerne ao pleiteado e se julga é quanto a se terem esgotado os recursos das partes, quando o debate chega ao termo da lei. Ir além disto, repita-se, é ombrear-se com os homens, tomar para si o que é tarefa deles, arriscar-se a que a tomem por vingança, mas se algo se atreveria a ordenar, isto seria o retorno do mundo ao que é enquanto adjetivo - puro, em equilíbrio, numa palavra, justo.

Nem isto, entretanto, cabe à Justiça - ou permite-se ela - pronunciar, cabendo-lhe talvez mostrar, como por eras vem fazendo, ao homem o que em verdade é, como num desnudar-se, a começar com a rejeição da espada, lento e parcimonioso para com o entendimento delicadamente instável dos que o presenciam. Com o tempo quiçá entendam que o fim dela, Justiça, é diluir-se em pura reintegração do que fugiu à regra, é o exercício sem esforço do perdão genuinamente pedido e concedido, o que não parece ainda ser destino visível. Porque perdão é o que por intuição se ofereceria ao agravo involuntário, que sequer confina com o descuido, enquanto o castigo se aplica, também intuitivamente, à falta que se entendeu propositada. E se propósito houve - toma a palavra o rábula, como a pavonear-se justo - é porque houve motivo, pelo que é estreito o caminho de perdoar quando o amesqunham avenidas em que trafegam nos dois sentidos crime e seus ensejos e onde, desnorteadas, procuram inutilmente estabelecer alguma ordem as punições.